quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Resistência a Antimicrobianos

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Assunto sério tanto para medicina humana quanto veterinária... uso indiscriminado de antimicrobianos, sub-utilização, adaptação genética microbiana... exemplos de fatores com os quais convivermos diariamente e determinantes para a resistência de microrganismos frente a antimicrobianos.
Vale a pena conferir um artigo disponível no site da "Revista Prática Hospitalar", é voltado para medicina humana mas aplica-se perfeitamente na Vet. Fácil linguagem e excelente mensagem. Segue abaixo alguns trechos do artigo.


O Desafio do Controle da Resistência a Antimicrobianos nos Hospitais
Revista Prática Hospitalar. Ano V, n. 28, jul-ago 2003.

Denise Kühner1 • Álvaro Marques2
1Farmacêutica. Especialista em Análises Clínicas pela Sociedade Brasileira de Análises Clínicas. Pós-Graduada em Farmácia Clínica Hospitalar pela Universidade Veiga de Almeida/RJ.
2Farmacêutico. Pós-Graduado em Farmácia Clínica Hospitalar pela Universidade Veiga de Almeida/RJ.

Esta revisão aborda a resistência antimicrobiana aos microrganismos e resume os principais fatores que predispõem ao seu desenvolvimento. Apresenta, também, algumas técnicas de intervenção para o seu controle, já adotadas com sucesso em várias instituições internacionais que passaram por essa experiência.

USO DE ANTIMICROBIANOS E O DESENVOLVIMENTO DE RESISTÊNCIA

Ao longo dos últimos 30 anos, foram publicados inúmeros trabalhos demonstrando a necessidade do controle do uso de antimicrobianos.

A princípio, este controle era realizado para conter o crescimento dos custos hospitalares e inibir os altos níveis de infecção. Hoje, sabe-se que o uso indiscriminado de antimicrobianos nos hospitais e ambulatórios contribui para o surgimento de cepas infecciosas multirresistentes, patogênicas ou saprófitas.

Os antibióticos são empregados há mais de 50 anos (na indústria, agricultura, pecuária e mesmo nos ambientes domésticos) para tratar ou inibir de forma rápida e eficaz a maioria das infecções comuns. Considerados como drogas milagrosas, em 1954 foram fabricadas 1.000 toneladas de antibióticos, contra uma produção atual estimada em mais de 25 mil toneladas. No entanto, não houve atenção para as conseqüências adversas de seu uso indiscriminado (como ocorre ainda hoje) e sim indiferença sobre qualquer problema potencialmente sério relacionado a esses fármacos.

A prescrição de antibióticos para infecções de etiologia viral que não necessitam de tratamento certamente potencializa o desenvolvimento da resistência. São empregados também, rotineiramente, antibióticos de amplo espectro em casos onde um outro fármaco mais simples seria suficiente para erradicar a infecção.

As bactérias têm um notável número de mecanismos genéticos para desenvolvimento de resistência aos antimicrobianos: podem sofrer mutação cromossômica, manifestar um gene latente de resistência cromossomal, adquirir novo material de resistência genética através de troca direta de DNA por conjugação, através de bacteriófago (transdução), através de plasmídeo extracromossomal de DNA (também por conjugação) ou ainda por aquisição de DNA, via transformação.

Não é incomum para uma única cepa de bactéria encontrada em um hospital possuir vários desses mecanismos de resistência simultaneamente.

Outros fatores que contribuem para o surgimento de resistência incluem a severidade da doença, o aumento do comprometimento do sistema imunológico, as intervenções invasivas, a transferência de pacientes entre clínicas, a falha nos procedimentos de controle de infecção e as precauções de isolamento ineficazes.

Verifica-se na prática clínica que quando os pacientes não respondem a um antimicrobiano particular, a resposta de muitos prescritores simplesmente é substituir a droga e analisar seu êxito ou sua ineficácia. No entanto, o emprego de alternativas terapêuticas sem embasamento nos testes bacteriológicos primários promove ou potencializa a resistência aos antimicrobianos.

No processo inicial de desenvolvimento da resistência bacteriana hospitalar, as bactérias ambientais recebem tratamento antimicrobiano em doses limitadas, suficientes para impedir, na maioria dos casos, que um paciente manifeste sinais de infecção. No entanto, com o passar do tempo, o grau de resistência e o número de bactérias resistentes aumenta, invertendo o quadro a favor das bactérias. Este processo genético e anormal de aquisição de resistência não permite que a mesma desapareça quando estabelecida.

USO INADEQUADO DOS ANTIMICROBIANOS

O uso inadequado dos antibióticos é a maior força promotora da disseminação de bactérias resistentes e outros agentes infecciosos. Os antibióticos são classificados como “drogas sociais” porque se há abuso ou subemprego de um anti-hipertensivo, por exemplo, somente o paciente é prejudicado. Para os antibióticos, o abuso, o uso inadequado ou subterapêutico e o surgimento de bactérias resistentes afetam não só o paciente tratado como qualquer indivíduo em contato com o mesmo.

A crescente prática de prescrição de antibióticos para pacientes ambulatoriais aumentou a severidade das doenças nos pacientes, quando hospitalizados, pela indução prévia de resistência. Além disso, os hospitais recebem um maior número de pacientes gravemente enfermos, transplantados, com falências de múltiplos órgãos ou imunodeficiência, portanto mais imunocomprometidos. Esses pacientes são freqüentemente colonizados com organismos oportunistas incomuns, mais resistentes aos antimicrobianos, como Pseudomonas, Stenotrophomonas, Acinetobacter, Enterobacter, Serratia, Staphylococcus coagulase-negativo, Candida, Phycomycetes e Aspergillus. A prática clínica moderna utiliza vários procedimentos mais invasivos, aumentando o risco de infecção por organismos específicos. Os estafilococos resistentes à meticilina e os Haemophilus resistentes à ampicilina são exemplos já confirmados em diversos estudos.

...

DIRETRIZES PARA A PREVENÇÃO DA RESISTÊNCIA AOS ANTIMICROBIANOS

A administração adequada de antimicrobianos inclui o conhecimento dos padrões de resistência, a escolha correta do fármaco e o controle de seu uso, a seleção ideal das doses e a duração dos tratamentos.

As seguintes diretrizes podem ser usadas para minimizar a disseminação de resistência aos antibióticos:

Higiene de mãos e uso de luvas durante o contato com pacientes.

Não prescrever antimicrobianos desnecessariamente.

Fazer um diagnóstico adequado por antibiogramas.

Não usar antimicrobianos para doenças autolimitadas.

Não usar antimicrobianos de amplo espectro como terapia primária.

Isolar os pacientes infectados ou colonizados por microrganismos resistentes.

Educar os pacientes sobre a importância de cumprir a totalidade do tratamento.

Utilizar os tratamentos mais curtos à medida que tenham provado sua eficácia.

POLÍTICAS DE CONTROLE

É recomendável que os hospitais, grandes e pequenos, com ou sem a percepção do problema de resistência a antimicrobianos, implantem as seguintes medidas de controle:

Estabelecer políticas para controle e registro da resistência e do uso de antimicrobianos.

Adotar e avaliar os manuais de normas e procedimentos.

Reconhecer que o bem-estar financeiro da instituição e a saúde dos pacientes são objetivos a serem alcançados e que a administração hospitalar deve ser responsável pela implementação das políticas adotadas pelo hospital.

Avaliar a efetividade das normas colocadas em prática.

...

CONCLUSÃO

O problema da resistência bacteriana, um desafio para os profissionais de saúde, impõe medidas urgentes para evitar seu surgimento e disseminação; para a indústria farmacêutica, ao desenvolver fármacos que atuem de forma eficaz nestes microrganismos, sem induzir o surgimento de cepas ainda mais resistentes; para os órgãos de vigilância epidemiológica, ao estabelecer normas e procedimentos para a orientação do uso e controle dos antimicrobianos e para os laboratórios de microbiologia, ao desenvolver técnicas mais sensíveis e ágeis para detecção dessas cepas.

O uso criterioso desses agentes é fundamental se quisermos preservar o arsenal hoje existente. O controle do uso indiscriminado de cefalosporinas de terceira geração e outros antimicrobianos envolvidos no surgimento de cepas multirresistentes, aliado ao estímulo à produção de enzimas inativadoras desses agentes, deve ser imediatamente implantado em conjunto com outras medidas apresentadas.

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